Thursday, April 9, 2015

FILME: Terminator 2: Judgment Day (O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final)

Muitos dos grandes filmes que estrearam até os anos 80 tinham aquela aura de produções intocáveis, clássicas. Uma das causas para isso é que não eram planejadas continuações para grandes sucessos; passava-se para o próximo projeto e pronto. Esta também acabou se tornando a razão pela qual não havia tanto reaproveitamento de ideias e revivals naquela época quanto se tem hoje. Se formos ver neste ano quantas coisas estão sendo revividas, ficamos loucos. É Jurassic Park, é Mad Max, é isso, é aquilo, enfim, tanta coisa, que fica parecendo que as boas ideias realmente acabaram.  Nos anos 90, ainda não havia sequer a temida "maldição do terceiro filme". Era o segundo que preocupava as pessoas justamente porque não se havia essa cultura de fazer continuações, por mais que um filme fizesse sucesso. Pouquíssimas coisas recebiam uma sequência, e normalmente ela era temida por todos. E muitas vezes, falhava em seu intento. Felizmente, Terminator passou longe de ter esse problema.


A segunda encarnação da série de filmes dos robôs do futuro veio recheada com incertezas, especialmente porque James Cameron não havia planejado continuar aquela história. Mas as pessoas ainda mantinham a esperança acesa, afinal de contas era o mesmo time de criadores que estava cozinhando a sequência, sete anos após o filme original ter saído. Acabou que esta continuação foi ainda melhor do que o primeiro filme. E o melhor é que, com um orçamento bem mais generoso, Cameron pôde brincar com as possibilidades de criar efeitos práticos e truques cinematográficos de maneira tão mais expressiva, que os efeitos visuais do filme acabaram ficando muito além de sua época.

A trama agora continua uns 10 anos no futuro, indo cair no ano de 1995. Vemos então um John Connor no alto de seus 10 anos de idade (embora o ator Edward Furlong deixe aparente seus 13 anos à época) vivendo com seus pais adotivos. Sua mãe, Sarah Connor (Linda Hamilton, repetindo seu papel) havia sido internada há alguns anos em um hospício por tentar bombardear uma fábrica enquanto preparava seu filho para ser o futuro líder da resistência. Com fama de paranoica e de ter desordem mental por causa dos apuros que passou, Sarah é mantida presa no hospital e supervisionada pelo Dr. Peter Silberman (Earl Bohen, retornando) que havia tentado conversar com Kyle Reese no primeiro filme, quando este foi aprisionado também.

Sarah Connor, tentando escapar do hospício onde está internada

Eis que novamente, do futuro, chegam mais dois robôs exterminadores; o primeiro, um novo modelo do T-800 (Arnold Schwarzenegger, retornando ao seu icônico papel) e um modelo T-1000 (Robert Patrick), sendo que a diferença entre os dois androides, é que o segundo é feito de um material de metal líquido, ou seja, o androide foi fabricado para sofrer avarias, podendo se regenerar a qualquer momento, além de, com seus poderes de transformação, poder transformar-se em qualquer coisa que visualize, desde pessoas até armas letais e estruturas sólidas. Há também uma diferença do T-800 do primeiro filme e do segundo: agora, o T-800 foi capturado pelo exército de Connor do futuro e reprogramado para proteger John Connor em 1995, ou seja, Arnold deixa o papel de vilão do filme anterior para se tornar o herói aqui.

A volta do T-800 e o despertar do androide T-1000
A trama começa a se desenrolar a partir daí. Temos o John Connor de 10 anos com seu amigo tentando hackear caixas eletrônicos de bancos. Connor já mostra alguma iniciativa e liderança, mas não boas intenções. Apesar disso, o garoto tem fibra, coragem e um ótimo gosto musical, mandando "You Could Be Mine" do Guns N' Roses enquanto pilota sua moto e corre pela cidade. Aliás, essa música do Guns acabou virando um dos cartões de visita do filme, ganhando até video clipe na época que foi lançado, ideia essa que, acredite se quiser, partiu do próprio Arnold, sendo ele um grande fã do Guns N' Roses.


Enfim, John acaba topando com o T-800 e fica sabendo pelo androide que ele foi mandado pelo próprio menino, do futuro, para protegê-lo em 1995, uma vez que as máquinas da Skynet, tendo falhado em matar a Sarah em 1984, tentaram novo plano em 1995, mandando desta vez o T-1000. John e Arnold então vão ao hospício libertar Sarah Connor para começar a investida deles contra o androide de metal líquido e salvar o futuro. Ocorre que a empresa Cyberdyne Systems guarda o braço mecânico do primeiro T-800 que veio em 1984 para estudos e análise, algo que vai formar a fundação para a criação da organização Skynet no futuro, então eles tem que arranjar um jeito de convencer um dos responsáveis pela pesquisa, Miles Dyson a invadir a Cyberdyne, destruir o braço mecânico para eliminar a hipótese de ter a Skynet e mais máquinas exterminadoras vindas do futuro e salvar a humanidade do juízo final, que é o dia em que as máquinas destruirão grande parte da humanidade e a batalha da resistência humana contra as máquinas terá início.

John ensinando o T-800 a não matar, Sarah Connor em seu momento Rambo e Dyson perplexo com o futuro robótico

Em linhas gerais, o filme é excelente ao apresentar sua trama principal e continuar a história da luta do ser humano contra sua própria tecnologia, reforçando mais ainda o discurso iniciado no primeiro filme sobre as consequências da pesquisa em inteligência artificial e o complexo de Frankenstein. A trama ainda amplifica o conceito dos fantasmas da máquina que eu mencionei na matéria sobre o primeiro filme; vou explicar a sacada genial de Cameron aqui na continuação e porque que ela faz desta sequência melhor e mais ousada do que o filme original: o novo T-800 é capaz de aprender com o contato com os humanos.

Cameron explica isso de maneira muito simples: o sistema de inteligência artificial do T-800 é equipado com um banco de informações que cria novas instruções, conforme necessário e conforme o androide faz perguntas em relação a conceitos que ele não entende, como por exemplo, por que matar é errado?, ou por que os humanos choram?, e por aí vai. São questionamentos que não ficam somente no plano do conhecimento do androide, mas também são amplos para qualquer pessoa da audiência se auto-questionar. Dessa forma, passamos a ter ainda mais empatia e sinergia com o personagem de Arnold, nos colocando no lugar dele e nos imaginando como crianças se fazendo os mesmos questionamentos.

High Five!

Ao mesmo tempo, observamos o relacionamento de John Connor com o androide evoluir e testemunhar a realidade do pai postiço. O robô passa a ser a figura paterna que John não teve, pois não importa o que acontecesse, ele estaria lá para protegê-lo. Cameron ainda é até meio perverso com a audiência ao mostrar isso, porque você tem a imagem de um androide, um ser sem vida, programado para matar e obedecer ordens, um ser de silício, exercendo o papel de uma figura tão importante na vida de um ser humano.

E através das sensações de Sarah Connor ao ver tudo isso acontecer, ela expõe a perplexidade da gente, imaginando que uma criatura teoricamente inferior a nós, humanos, seria capaz de exercer tal papel. Este, inclusive é o pensamento que encerra o filme: se um robô é capaz de aprender coisas que a gente considera inerentes a nós, seres humanos, como o valor de uma vida, a tristeza de um choro e da perda... seríamos nós também, seres teoricamente superiores, capazes de colocar estes conhecimentos e valores em prática? Ou nada mais restaria para nós, seres humanos e de fato merecemos o nosso destino do juízo final?

O pesadelo de Sarah Connor

Assim, os fantasmas de código que habitam o "inconsciente" do robô ganham contornos de sensações, de sentimentos e se transformam em uma consciência artificial. E é aqui que adiciono o meu pensamento: se o mal é inerente ao ser humano, passaríamos a nos igualar a seres artificiais, desprovidos de consciência e sentimentos humanos quando cometemos atrocidades ou estamos apenas exercendo a nossa inescapável humanidade? É algo para se pensar.

Eu já falei lá em cima sobre o John Connor. Vamos agora falar na imensa mutação de personalidade que teve a incrível personagem de Linda Hamilton. A sua Sarah agora não é mais a garota indefesa do primeiro Terminator. Ela tem fibra, ela é corajosa, valente, até mesmo louca por vezes. Ela não mede esforços para conseguir o que quer. Sua personalidade forte é magnética, perigosa e interessante de acompanhar. Ficamos impressionados em ver sua psique que se tornou muito mais complexa e cheia de cicatrizes internas, observando até onde ela seria capaz de ir para alcançar seus objetivos.

Sarah ameaçando executar Miles Dyson

Em tom de brincadeira, eu até falo por vezes que a Sarah Connor costumava ser a mulher mais machona que eu conheço! Isso, claro, até aparecer a Michelle Rodriguez, aí amigo, não dá pra competir! No caso da Michelle, só falta pôr um bigode e pronto, no meio de toda aquela gostosura, haja testosterona! Mas brincadeiras à parte...

Sarah Connor, prêmio Miss Rambina de 1991! Detalhe: ela levou uma facada no ombro! Vai encarar?
Terminator 2: Judgment Day é um filme com uma trama mais complexa do que se imagina, contendo personagens mais tridimensionais do que aparentam com mais questionamentos da natureza humana do que se vê em seu verniz de filme de ação. Com este filmaço, Cameron encerra sua participação na franquia de forma espetacular, fazendo, o que eu considero ser, o seu melhor filme e uma das melhores ficções-científicas da história.

Arnold aqui está bem melhor como ator do que estava em T1. Sua evolução aqui é aparente e sua dedicação pelo personagem robótico é muito visível. Aqui, Arnold teve a oportunidade de criar mais uma frase cartão-postal de sua carreira, a que o menino John Connor ensina o robô quando estão conversando a caminho de um esconderijo; sim, esta mesmo: HASTA LA VISTA, BABY! Pode falar a verdade, eu sei muito bem que você fala juntinho com o T-800 quando chega essa cena memorável do filme! Pode admitir! Eu faço isso sempre!
HASTA LA VISTA, BABY!
Os efeitos especiais então, são um show a parte! As transformações do androide T-1000 são impressionantes, parecem reais, são efeitos visuais tão bem feitos que poderiam até serem confundidos com algo feito no cinema moderno de agora com computação gráfica. A diferença é que estes, foram feitos de formas mais práticas, sem a ajuda da computação gráfica evoluída que temos hoje. Mais uma vez cortesia da lenda dos efeitos visuais de Hollywood em mais um de seus trabalhos primorosos, Stan Winston, um cara que faz muita falta a Hollywood.

A lenda dos efeitos especiais e alguns de seus brilhantes trabalhos
A magia de Stan Winston em T2
Vale destacar aqui também, mais uma vez o grande trabalho de Brad Fiedel na releitura de seu tema de Terminator do filme original. Pessoalmente, eu sempre preferi mais o tema original de T1, mas a releitura do compositor aqui também não pode ser ignorada e, mais uma vez o seu trabalho de composição para o filme nos proporciona um tema opressor, denso e que dialoga perfeitamente com a atmosfera carregada do futuro apocalíptico do filme.

E falando em futuro apocalíptico, temos a chance de finalmente conhecer um pouco mais dos heróis da resistência humana e seu líder, John Connor (Michael Edwards, o John do futuro). O salvador nos é apresentado como um cara com cicatrizes de batalha e soldados que só de olharem para sua figura imponente, prestam reverência. Mais uma vez, chamo a atenção aqui para a figura do salvador da qual falei no texto sobre o filme original e a referência bíblica.



O filme foi um verdadeiro sucesso de bilheteria e foi elogiadíssimo por público e crítica. O resultado foi tão bom que acabou gerando até mesmo uma atração nos parques da Universal, atração essa que eu tive o privilégio de visitar e conferir, inclusive com vídeos dirigidos pelo próprio James Cameron e com performances dos próprios atores do filme, e olha, após ter passado pela experiência, digo com toda certeza: vale cada centavo ir ao parque da Universal em Orlando para conferir a atração! Quando ela terminou, eu até comentei com alguns dos presentes que se aquela atração do parque tivesse sido o terceiro filme da série, eu estaria mais feliz. A aprovação de quem me ouviu falar veio num instante. Confira um pouco dessa atração e, se você tiver a chance, vá visitá-la:


Claro, a atração do parque diverge do final do segundo filme um pouco, mas não tinha mesmo o intuito de ser algo canônico no universo cinematográfico de Cameron. Mas como eu já falei, vale muito a pena para quem puder ir.

Concluíndo, um filme espetacular, que acaba nos deixando cheio de questionamentos e nos trás uma experiência cinematográfica inesquecível. Algo que vale ser mencionado por último, inclusive, é que o filme tem um final alternativo. Quem já o assistiu, está familiarizado com a cena final da estrada e a mensagem final de esperança de Sarah Connor, mas há um final que encerra de vez a saga no cinema e nos mostra que James Cameron pretendia realmente colocar um fim em sua história. Vislumbramos um futuro, anos depois em que vemos uma Sarah Connor velha sentada no mesmo parque em que teve o pesadelo no filme, só que desta vez ela está diante de um John Connor (Michael Edwards) casado e com seus filhos brincando com eles no parque. Ou seja, o futuro apocalíptico não aconteceu devido aos esforços da valente Sarah Connor, seu filho e o T-800.

O final alternativo que coloca um fim à saga
Claro, este final não fazia muito sentido porque se for pensarmos, por que John Connor iria querer mandar Kyle Reese para o passado ou o T-800 reprogramado se a guerra contra as máquinas jamais aconteceu? Não faria sentido algum. Este final chegou a ser exibido para algumas audiências teste e foi reprovado, então ficamos com o brilhante final sombrio que deixa dúvida em nossas cabeças e a famosa frase de Sarah: "NÃO HÁ DESTINO, A NÃO SER AQUELE QUE NÓS FAZEMOS".

Assim, Terminator 2: Judgment Day termina com honras e glórias e James Cameron vai cuidar de outras coisas na sua vida, como fazer o ótimo filme True Lies e um certo outro filme aí sobre um mega-navio que afundou após bater em um iceberg, eu não me lembro agora o nome, mas, enfim, tem um romancezinho meio pastel nele.

Este segundo filme também marca uma tradição que se tornou constante na franquia, ela constantemente mudar de proprietária. Eu nunca havia visto uma franquia que mudasse de mãos mais do que essa! Em todas as encarnações da série, Terminator está em mãos diferentes. No primeiro filme, as proprietárias eram a Hemdale e a Pacific Western, tendo a Orion Pictures como distribuidora. Já neste segundo, a Hemdale faliu e fechou as portas e a nova proprietária passou a ser a Carolco e o filme foi distribuído pela Tri-Star Pictures. E assim foi, em todos os outros novos filmes, sempre em mãos diferentes.

Enfim, independente de quem estivesse com a posse da franquia, até aqui, James Cameron ainda estava no comando. A notícia boa é que desta forma, ganhamos dois excelentes filmes de ficção-científica que entraram para a história. A notícia ruim é que uns oportunistas aí decidiram continuar a franquia anos depois, após Cameron ser obrigado a vender metade dos direitos de sua criação. Nos veremos então em Maio, caro leitor, com mais detalhes dessa investida.

Terminator 2: Judgment Day (1991)
Título em português BR: O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final
Nota: 10 / 10

Direção: James Cameron
Produção: Stephanie Austin, James Cameron, Gale Anne Hurd, Mario Kassar, B.J. Rack
Roteiro: James Cameron, William Wisher Jr.
Trilha sonora: Brad Fiedel

Estrelando: Arnold Schwarzenegger, Linda Hamilton, Edward Furlong, Robert Patrick, Earl Boen, Joe Morton, S. Epatha Merkerson, DeVaughn Nixon, Michael Edwards

Outros filmes desta cinessérie:
- Terminator Genisys (O Exterminador do Futuro: Gênesis) (2015)
Terminator Salvation (O Exterminador do Futuro: A Salvação) (2009)
- Terminator 3: Rise of the Machines (O Exterminador do Futuro 3: A Rebelião das Máquinas) (2003)
- Terminator 2: Judgment Day (O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final) (1991)
The Terminator (O Exterminador do Futuro) (1984)

Trailer:


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