Saturday, July 17, 2004

CD: ...Calling All Stations... - Genesis

Genesis... humm... esse nome, por si só gera tantas controvérsias! Uns se recordam como a banda pop de Phil Collins nos anos 80. Outros a veneram como a gigante que foi um marco no Rock Progressivo dos anos 70. Bem, isso acontece porque o Genesis é isso mesmo. Um pouco dos dois. De um lado, na fase progressiva, a banda conseguiu o mérito de idealizar de vez o gênero. Assim, a banda arrebanhou toneladas de fãs do gênero, emplacando clássicos do rock progressivo como os fantásticos álbums "Nursery Crime", "Selling England By The Pound", "The Lamb Lies Down On Broadway", "A Trick Of The Tail", "Duke" e outros. De outro, a faceta pop, encantou a geração dos anos 80 com bons discos do gênero, emplacando vários hits naquela década e início dos anos 90, como os ótimos "Genesis", "Invisible Touch" e "We Can't Dance".

E ainda, quando a banda sentiu que estava cessando a fonte de boas idéias no progressivo, lentamente mudou seu foco. Isso é mostrado nos discos transitivos "...And Then There Were Three" e "Duke". Após o lançamento e turnê de "We Can't Dance", era claro que a banda estava também cessando sua fonte de boas idéias no âmbito pop. Então Phil Collins pede as contas. A banda desaparece por 6 anos sem dar notícias ou dizer se era mesmo o fim ou não. Então em 1997, Mike Rutherford e Tony Banks, os dois únicos remanescentes da banda saem da toca e anunciam a luz do dia que irão gravar um novo disco. O anúncio garantia que os fãs iriam sentir uma forte guinada de volta aos anos 70. Bem, não foi bem assim. Para a árdua tarefa de substituir o talento de Phil Collins, foi contratado um cara até então desconhecido, um escocês chamado Ray Wilsom, advindo do cenário grunge dos anos 90. Seus vocais são bons, apesar de meio genéricos, e é um músico bem talentoso. E para a bateria, que funcionaria mais como um sideman mesmo, um cara chamado Nir Z., e uma esporádica participação em quatro músicas de Nick D'Virgílio, do Spock's Beard.

O desafio? Fazer o Genesis renascer das cinzas. Decidiram fazer um disco metade prog e metade pop, pois devem ter imaginado que, se não tinham mais tantas idéias boas em ambos os gêneros, então a união dos dois poderia ser sua melhor arma. E o tiro saiu pela culatra. Os caras estavam sem mais boas idéias em ambos os departamentos! Muitas vezes inclusive, o disco tenta ter aquela veia puxada para o som do Mike + The Mechanics, mas falha inclusive nisso. Sendo assim, vamos analisar ambos os lados do álbum separadamente, o "prog" e o pop. Aliás, a própria presença dos membros remanescentes é bem discreta. Tony Banks apenas faz acordes e arranjos simples no teclado. As vezes eu me pergunto se ele não estava sofrendo de um grave caso de artrite na mão quando gravou esse disco. Bem, comparado a qualquer outro disco do Genesis, só posso pensar nessa possibilidade. Mike também quase nem é notado, não fosse por suas linhas de guitarra e a vaga lembrança do som de sua banda solo, pois o baixo aparece apenas como pano de fundo para as músicas. A guitarra por vezes está mais em evidência, mas de maneira muito simplória, com pouca inspiração.

Vamos à porção progressiva do disco, abrindo com a faixa "Calling All Stations". Começa com um riff bom, mas é cansativa demais. Alguns momentos até remetem ao antigo Genesis, mas muito poucos. "Alien Afternoon" já mostra alguns sinais mais fortes da veia progressiva que fez da banda famosa, mas também se torna cansativa. Evidentemente não podemos culpar Nick por isso, que só participa na primeira metade da música, ele até tentou fazer com que os caras lembrassem do que eles costumavam ser nos anos 70, mas foi tempo perdido. Podemos pelo menos, aceitá-la pelo que ela é, ou seja, uma boa tentativa, pois não deixa de ser pelo menos escutável. "The Dividing Line" já é bem mais aceitável, um claro sinal de que alguém resolveu relembrar os caras de seus dias áureos. Bem de levinho, mas foi. "Uncertain Weather" tem novamente Nick no comando das baquetas. Uma versão chinfrim da maravilhosa "Man Of Our Times". É bonita, mas comparada com a supracitada deixa muito a desejar. "There Must Be Some Other Way" até que tenta, mas apenas nos proporciona pequenos flashes e traços de progressivo, mas não forma um todo coeso. Se quer fazer uma música longa e não tem idéias, não faça. É melhor do que ficar se repetindo só pra dizer que criou um épico. O solo de Banks é o melhor momento dela. E finalmente, "One Man's Fool" encerra a medíocre (para o padrão dessa banda) porção progressiva do disco. Também não tem muita coisa relevante, mas é no mínimo escutável, e a passagem final é o melhor momento.

A porção pop do disco não melhora tanto. "Congo" é tranquilamente a melhor da porção pop, mas ainda assim, longe de fazer justiça a qualquer uma da fase pop da banda nos anos 80, mas é a mais animada. "Shipwrecked", bastante chatinha, ilustra perfeitamente o que ocorre com a banda só pelo nome (Barco Furado). "Not About Us" é uma boa balada, bastante pegajosa, segue o padrão de qualidade de "Congo". "If That's What You Need" por outro lado, segue o padrão de "Shipwrecked", ou seja, é tão chatinha quanto, apesar de ter Nick comandando as baquetas. Por fim, "Small Talk" é bem animada, e apesar de muito repetitiva, é bem audível, e também tem Nick atrás do drumkit.

Resumindo, um disco que tenta, mas abaixo da média. Se fosse uma outra banda, ou se fosse um trabalho que não viesse com o nome "Genesis" estampado, talvez a história seria outra. Mas estamos falando dos mesmos dois caras que compuseram "Watcher Of The Skies", "Firth of Fifth", "Driving The Last Spike", "Supper's Ready", entre outros clássicos. Depois do vexame das vendas desse último disco e do fraco resultado alcançado com a turnê do mesmo, com performances sofríveis na voz de Wilsom (e olha que a culpa não é dele, uma vez que sua carreira solo é bem bacana e deve ser conferida) é claro que a banda descansou em paz, afinal, nem mesmo Phil Collins com todo seu talento teria segurado essa. O grupo, assim como começou, terminou de forma fraca sua discografia de estúdio. Fãs costumam dizer que o Genesis tem uma excelente discografia, exceto pelo primeiro e último disco do grupo. Recomendado apenas para colecionadores ou ouvintes casuais.

...Calling All Stations... (1997)
(Genesis)
Nota: 6 / 10


Tracklist:
01. Calling All Stations
02. Congo
03. Shipwrecked 
04. Alien Afternoon 
05. Not About Us 
06. If That's What You Need 
07. The Dividing Line 
08. Uncertain Weather 
09. Small Talk 
10. There Must Be Some Other Way 
11. One Man's Fool

Selo: Virgin (UK), Atlantic (US)

Genesis é:
Ray Wilsom: voz
Mike Rutherford: guitarra, baixo
Tony Banks: teclado

Músicos adicionais:
Nir Zidkyahu: bateria
Nick D'Virgilio: bateria (primeira metade da faixa 4 e faixas 6, 8 e 9)

Discografia:
Platinum Collection (2004)
Live at Wembley Stadium (2003) - DVD
The Way We Walk – Live in Concert (2002) - DVD
...Calling All Stations... (1997)
We Can't Dance (1991)
Invisible Touch (1986)
- Genesis (1983)
- Abacab (1981)
Duke (1980)
- Wind & Wuthering (1976)
- Selling England by the Pound (1973)
- Foxtrot (1972)
- Nursery Cryme (1971)
- Trespass (1970)

Site oficial: www.genesis-music.com

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