Monday, June 26, 2017

LIVRO: Post Office (Cartas na Rua) - Charles Bukowski

Nota: 10 / 10

"Charles Bukowski sai em busca de emprego e uma vida idílica, baseada no sonho americano." Essa seria uma das maneiras de descrever esta obra do autor, considerado por muitos como o último poeta maldito de sua era. Outra forma, seria "Charles Bukowski pisoteia o sonho americano."

Eu sempre tive interesse pelas narrativas de Buk. Não por considerá-lo um exemplo de vida, o cara era um libertino, vivia como um andarilho, mas sim pela sua narrativa comicamente ácida em que ele derruba algumas noções pré-concebidas que as pessoas tinham à sua época em relação à sociedade americana.

Em Post Office, lançado originalmente em 1971, e o primeiro romance do autor, Bukowski resolve contar suas frustrantes experiências dos anos 1950 no serviço postal americano.

É até engraçado a questão da trama, como ela se desenrola. Dá até para estabelecer um padrão de narrativa: Buk, na imagem de seu pseudônimo dos livros, o recorrente personagem Henry Chinaski, se situa no trabalho, depois com as prostitutas, a bebida, a corrida de cavalos; logo depois, volta ao trabalho. Este é um dos livros do autor que mais expõem suas paixões na vida, mesmo tendo como ponto central, algo que lhe pareceu desagradável.

Começa com o autor expondo o Código de Ética do serviço postal; é quase como se Buk estivesse nos dizendo: "olha lá, eu seguia tudo direitinho, fazia as coisas certas, eram eles que ficavam me escrutinizando".

Ler uma obra de Buk, além de uma experiência muito divertida, não é algo críptico. Definitivamente não se trata de literatura rebuscada. Buk é curto e grosso, e vai direto ao ponto. Gosto de escritores assim, desde Hemingway. Sem contar a linguagem coloquial e nada literata, como se fosse uma simples conversa de bar regada à cerveja. E vou te dizer, eu posso não considerar Buk um exemplo de vida, mas me sentaria com ele no bar, de muito bom grado, para ouvir suas histórias; ele tem uma certa sabedoria que eu aprecio, e aquele jeitão de "tô cagando e andando", de falar as coisas na cara, algo que eu e muita gente gostaria de ter em certos momentos.

Aí ele inicia falando como foi parar no serviço postal, como ele esperava ter um empregão fácil, entregar cartas e trepar com mulheres, todos os dias. Mas acima disso, como ele esperava ter um padrão de vida um pouco melhor, plano de carreira, e tudo mais. É justamente esta expectativa que faz a decepção dele soar tão tragicômica no livro. Ele é tão direto, tão despreocupado, que nem perdeu tempo dedicando a obra a alguém; ou pelo menos, eu imagino que ele tenha achado que ninguém merecia ter essa obra dedicada. Não sei dizer ao certo.

A narração tem dois momentos. Um, o principal, é a rotina de carteiro. Ele conta como que o chefe dele era um pé no saco, como que o serviço prometia benefícios que na verdade não existiam, e as complicadas experiências que ele teve que passar, se perdendo pelas ruas da cidade, enfrentando os mais variados contratempos. Em uma delas, por exemplo, ele enfrenta uma bela enxurrada, a rua fica alagada, e ele fica por lá, no carro dos correios, Em outra, ele escreve um relatório envolvendo maus tratos de seu chefe, o sr. Jonstone, e tudo que ganha em troca é uma reprimenda de um lambe-saco do dito-cujo e passa o dia seguinte de folga, como ele mesmo disse, "bebendo e trepando" com sua Betty, a namorada da época... feia, claro, como quase todas as mulheres das narrativas do escritor... mas segundo ele, "grande em todos os lugares que deveria ser", o que incluia um generoso "rabão".

Lá pela metade, em que chegamos ao segundo momento, Buk/Chinaski sai dos correios e vai tentar ganhar a vida apostado em corridas de cavalos, pois o serviço dos correios não estava ajudando, ele era meio que persona non-grata por lá, tanto é que até chegaram a riscar o nome dele da lista de funcionários. Betty sai da vida dele; Jane, a pessoa real da vida de Buk em que Betty foi inspirada, morreu em 1962. Enfim, Chinaski arranja um segundo caso, Joice, uma ninfomaníaca. Ele também volta a trabalhar para o serviço postal por um tempo, organizando cartas. Lá pelo final do livro, devidamente decepcionado e desiludido com tudo, ele simplesmente dá adeus ao serviço; fazendo alusão ao fato da vida real, onde ele conhece John Martin, fundador da editora Black Sparrow e o seu editor; Buk termina o livro com Chinaski mudando de cidade, e dizendo que iria escrever um romance sobre as suas experiências nos serviços dos correios.

E é impressionante como que todo tipo de merda acontece com ele! Buk não somente desmente toda aquela imagem colorida que todo americano nutria pelos serviços públicos, mas expõe a ferida aberta das péssimas condições de serviços a que os funcionários eram submetidos; talvez seja por razões como essas que os livros do autor tenham tão pouco alcance de público, pois sua narrativa cômica e ácida simplesmente implode as instituições americanas que vigoravam na época. Afinal de contas, quem vai querer dar razão para um velho doido, bêbado e mulherengo, certo? Claro, haja vista de que estes eram os anos 50 e parte dos 60 nos EUA, muita coisa já pode ter mudado desde aquela época.

Fazendo uma pesquisa rápida pela internet sobre o assunto, não creio que tenhamos a melhor das perspectivas, vemos que a possibilidade de o livro ainda soar atual é grande, pelo menos no que tange ao serviço postal; independente disso, o texto de Buk sobre isso tem um poder considerável de colocar gasolina nessa fogueira ainda por um bom tempo. Uma coisa é certeza: sendo bom ou ruim, ao menos o serviço postal americano não é o brasileiro. Mas isso é outra história.

Eu recomendo a leitura deste livro. É uma leitura rápida, nada complicada, mas que vai lhe proporcionar horas de diversão e reflexão em relação ao quanto somos (in)felizes tendo como base de nossas vidas, as instituições estatais e nosso sustento de cada dia dependendo unicamente delas. Sendo uma narrativa baseada em fatos que realmente aconteceram ao escritor, é legal a gente pegar essas ideias que Buk compartilhou conosco, e procurar meios de melhorar o nosso próprio meio. E é por isso que eu disse, lá em cima, que eu aceitaria, de muito bom grado, ouvir Buk em uma mesa de bar. Como diz um amigo meu por aí, o velhote sabe das coisas.

Post-Office (1971)
Título em português BR:
 Cartas na Rua

Escrito por: Charles Bukowski

No comments:

Post a Comment