Sunday, February 22, 2015

NO CINEMA: The Shining (O Iluminado)

Você provavelmente já ouviu, em algum círculo por aí, falar deste, que é considerado pelos mais aficcionados, como um dos filmes mais fracos da filmografia do lendário diretor e cineasta Stanley Kubrick, diretor de tantos filmes clássicos, como 2001: A Space Odissey (2001: Uma Odisseia no Espaço), A Clockwork Orange (Laranja Mecânica), Spartacus, Full Metal Jacket (Nascido para Matar), entre muitos outros. Bem, ocorre que, esta noite, eu e um grupo de amigos fomos presenteados com a oportunidade de checar este brilhante filme de Kubrick na tela grande do Cinemark. Eu não poderia recusar tal demanda, uma vez que sou um enorme fã desta adaptação da obra literária de um de meus escritores de horror favoritos, Stephen King. Ainda aviso a todos que haverá aqui uma matéria sobre o livro, assim que eu encontrar tempo hábil para escrevê-la. O que posso adiantar a vocês é que o livro e o filme são duas histórias completamente diferentes, tendo como semelhanças apenas o nome dos personagens principais e a premissa. Portanto, meus comentários serão baseados apenas no filme. 

Tendo assistido já o meu DVD e, posteriormente, Blu-Ray de The Shining inúmeras vezes e praticamente decorado as falas e memorizado cenas do filme, é claro que eu já sabia o que esperar em termos de conteúdo, já sabia o final, o andamento lento, o ritmo vagaroso, contemplativo, intimidador, que faz a audiência encarar o monstro do filme nos olhos e a atmosfera angustiante de enclausuramento dos personagens como uma prisão auto-imposta a eles mesmos e até mesmo da câmera de Kubrick que acompanha de perto todos os personagens, fazendo da audiência testemunha ocular dos fatos e cúmplice dos personagens do filme. Já sabia de tudo isso. Sendo um enorme fã da obra de Kubrick e deste filme, não havia novidade para mim lá. Mas a indescritível experiência de testemunhar esta história macabra na telona eu jamais havia experimentado e aproveitei cada momento. A experiência, mesmo 35 anos depois do lançamento original do filme em 23 de Maio do ano de 1980, se mostrou tão forte e tão significativa quanto antes. O filme não perdeu o seu apelo, e foi uma experiência muito legal estar lá na sala e ter a chance de presenciar alguns possíveis não-iniciados, se borrarem com as reviravoltas e a constante mudança de humor do personagem principal, Jack Torrance, em uma espetacular interpretação de um jovem Jack Nicholson, 9 anos antes de se transformar no Coringa.

Little pigs, little pigs, let me in!... Not by the hair on our chinny-chin-chin!

O garoto Danny Torrance, interpretado pelo menino Danny Lloyd também não deixou de ser assustador, com suas constantes conversas com seu amigo invisível. Aquele dedinho dele e aquela vozinha rouca, repetindo sem parar a palavra REDRUM para sua horrorizada mãe é tudo menos fofa, e pode fazer o cara mais macho mijar nos lençóis à noite. Um verdadeiro show de interpretação. Não acredite, você que me lê, que outros cineastas não se influenciaram por Kubrick. Tem gente que acha The Sixth Sense (O Sexto Sentido) de M. Night Shyamalan algo original. Não é. Eu vivo falando quando me perguntam, que The Sixth Sense é um bom filme, mas o garotinho interpretado por Haley Joel Osment nada tem de especial comparado ao bem mais interessante e misterioso personagem de Danny Lloyd.

REDRUM... REDRUM... REDRUM!!!
Ainda temos a última integrante da família Torrance, Wendy, interpretada pela atriz Shelley Duvall. Considero este o ponto fraco do filme. A Wendy de Kubrick é bem bobinha e desengonçada se comparada à Wendy original de King, cheia de auto-estima, corajosa e colaborativa. Aqui nesta parte, acho que Kubrick falhou ao tentar trazer sua visão de Wendy à telona. Eu não vou mentir, eu nunca me importei com isso, mesmo após ler o romance original de King alguns anos atrás, que tratarei em um próximo artigo unicamente sobre o livro, eu nunca me incomodei com a Wendy kubrickiana. Mas que foi uma mudança desnecessária, isso eu achei. Não precisava a Wendy de Kubrick ser tão pamonha.

Gimme the bat! WENDYYYY, gimme the bat! Stop swinging the bat.
Por fim, temos o último dos personagens mais importantes da trama, Dick Hallorann, interpretado pelo ator negro Scatman Crothers, que faleceu em 1986 aos 76 anos. Um dos personagens mais misteriosos da história. Ele é o cara que recebe a família Torrance nos aposentos do Overlook Hotel, após terem sido apresentados pelo dono Sr. Ullman.

They call it "the shining"!
A história é o seguinte: Jack Torrance, um escritor falido e alcoólatra em recuperação muda para este hotel da história para ficar como zelador por uma temporada de inverno, com a promessa de ter alguma paz e silêncio no recinto e a expectativa de ele poder terminar de escrever um romance para sanar sua situação financeira. Ocorre que o lugar é tido como amaldiçoado, e já houve histórias anteriores de outros zeladores perderem as estribeiras e cometerem assassinatos e até mesmo suicídio dentro daquele lugar, enfim, é um lugar bem mal visto por alguns, apesar de ter uma arquitetura invejável. Sendo assim, gradativamente, Jack vai desenvolvendo uma espécie de febre de cabine e muda seu comportamento em relação à sua família. A situação fica pior uma vez que Jack tem problemas com bebida e de relacionamento com sua família, especialmente por causa de uns três anos atrás, quando Danny era mais jovem e Jack, que havia bebido um pouco mais do que o normal, acabou deslocando o braço do menino por acidente (é o que ele alega). A situação vai ficando insustentável e o clima vai ficando pesado naquele lugar conforme o tempo vai passando e Jack acaba ameaçando a própria família.

A história trata dos fantasmas interiores que nós temos. É um terror psicológico muito bem arquitetado que envolve fantasmas do passado e do presente. O hotel em si não é apenas uma mera localidade, virando um personagem da história a partir do momento em que acompanhamos as visões de Jack. A loucura toma a forma de um pai desesperado tentando chegar a termos com sua família e recebendo influência do próprio lugar e seus fantasmas, que vão gradativamente manipulando a mente de Jack fazendo-o pensar que a culpa pelos seus problemas pessoais é de sua esposa e filho.

Algumas das cenas mais horrorizantes da história do cinema merecem destaque aqui, como a cena em que Danny entra em um dos quartos do hotel e vê uma cena assustadora em uma banheira. A cena não é ilustrada no filme pelos olhos do menino, mas sim pelos de Jack.

O que será que ele viu?
Ou então a escabrosa cena das gêmeas no corredor do hotel, que inclusive foi homenageada no filme do Bob Esponja de 2015. Um par de gêmeas muito macabras e misteriosas que tem um olhar morto, pesado, e novamente ilustram a influência do próprio hotel como personagem principal da história, talvez brincando com os sentimentos do menino ou talvez o alertando de um perigo muito maior.

Come plaaaay with us, Danny! Forever... and ever... and EVER!
Há também a horripilante perseguição no hotel que nos leva à cena mais clássica do filme, onde Jack Torrance desce o machado para arrombar uma porta.

HERE'S JOHNNY!!
Por último a assustadora perseguição na neve, dentro do labirinto vegetal fora do hotel. Nela, Danny é perseguido por seu pai e consegue enganá-lo falsificando suas pegadas na neve.

DANNYYYYYYY!!!!
Mas há também cenas perturbadoras e cômicas. Duas que merecem destaque são a cena do hall e a do bar.

Na primeira, Jack está escrevendo na máquina e Wendy vem convidá-lo a sair. Jack se irrita e estabelece novas regras para adentrar o recinto. A situação começa a ficar cada vez mais insuportável conforme o tempo passa.

All work and no play makes Jack a dull boy!
No outro momento, mais cômico, mas igualmente bizarro, Jack está no bar do hotel conversando com o barman Lloyd; enquanto conversam, Jack confirma o que Wendy contou no início do filme sobre a relação dele com sua família e de como Jack machucou o pequeno Danny. A comicidade vem da atuação magistral de Nicholson que consegue articular um tom de deboche com caras, bocas e ironia em seu personagem, deixando aflorar a perda gradativa da sanidade de seu personagem.


Mas eu deixei minha cena favorita do filme para o final. Considero a melhor cena do filme a discussão de Jack e Wendy no hall do hotel, um pouco antes do clímax do terceiro ato, que leva Jack a berrar com Wendy, sendo acertado pelo taco de baseball e trancado no depósito de comida. Nesta cena, a loucura incutida pelo hotel em Jack já está no pico, demonstrando totalmente os resultados do exílio familiar dos personagens e a perda total de sanidade de Jack. O drama familiar então atinge aqui o seu ápice, terminando em perseguições, mentiras e tentativas de assassinato.



Uma observação em relação a esse filme em comparação à obra original é referente ao final. O de Stephen King é articulado de forma diferente. Não que o de Kubrick seja ruim, é muito satisfatório, mas preza somente a visão sobre a loucura do personagem principal, ao passo que no livro de King, a visão é em relação à redenção de Jack Torrance. Mas isto é um detalhe mínino. Falarei mais sobre isso quando tratarmos do livro. De qualquer forma, gosto de ambas as visões, e a de Kubrick tem a famosa visão aberta de final, que deixa um nó na sua cabeça. Estaríamos mesmo diante daquilo que realmente vemos na tela? Preste atenção no quadro da parede do hotel no fechamento do filme e tire suas conclusões.

Jack Torrance: escritor, professor, zelador de hotel... e campeão absoluto do desafio do balde!
Em suma, The Shining é um horror psicológico perturbador e uma das obras de Kubrick em que os atores envolvidos tiveram que se desdobrar muito mais para entregar atuações convincentes e intensas. Mesmo que você não considere o filme supremo do diretor, há de se observar que Kubrick e todo seu gênio consegue incutir suspense e horror em níveis que nenhuma outra produção mais atual consegue nos dias de hoje. Um filme que eu recomendo altamente que qualquer pessoa assista e que é um verdadeiro clássico do cinema moderno. Foi um imenso prazer finalmente ter a chance de poder testemunhar esta grande obra na tela grande.

Curiosidade: você sabia que Stephen King detesta este filme? Sim, ele não perde uma oportunidade de falar mal do filme de Kubrick baseado em sua obra. Segundo King, seu desgosto pelo filme de Kubrick vem do fato de que, enquanto o alcoolismo de seu personagem no livro é um dos responsáveis pela descida ao inferno e consequente mudança de gênio, chegando ao estado de loucura que vemos na história, no filme, King declarou que o Torrance de Nicholson é louco demais para os padrões de qualquer pessoa. King é um escritor da moralidade, e para ele, Jack Torrance poderia ser qualquer pessoa, ou seja, o sujeito de bom coração mas fraco demais para combater seus próprios monstros. O próprio King foi um dos responsáveis pela inferior produção televisiva em formato de minissérie que adapta seu livro, feita justamente por causa do ódio que o escritor ainda nutre pelo filme de Kubrick. A produção, apesar de bem inferior e de mais baixo orçamento, segue o livro mais de perto. Por isso, eu recomendo este telefilme para aqueles que ainda não leram o livro de King e querem ter uma ideia da proposta original do escritor. Não é uma produção imprestável, mas definitivamente não tem o mesmo brilho do filme de Kubrick, e no entanto, King a defende com unhas e dentes. O telefilme passou na TV americana de 27 de Abril de 1997 a 1º de Maio de 1997.

The Shining (1980)
Título em português BR: O Iluminado
Nota: 9,5 / 10

Direção: Stanley Kubrick
Produção: Stanley Kubrick, Robert Fryer, Jan Harlan, Mary Lea Johnson, Martin Richards
Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson (baseado em livro de 1977 escrito por Stephen King)
Trilha sonora: Wendy Carlos, Rachel Elkind

Estrelando: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Barry Nelson, Philip Stone, Joe Turkel, Lisa Burns, Louise Burns, Lia Beldam, Billie Gibson

Trailer:


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