Sunday, October 15, 2017

FILME: Blade Runner (Blade Runner: O Caçador de Andróides)

Nota: 10 / 10

Me preparando semana que vem para retornar ao mundo de Blade Runner, resolvi revisitar mais uma vez a obra cult de Ridley Scott. Blade Runner é uma daquelas obras redefinidoras de um gênero inteiro, neste caso, o de ficção-científica. Fiquei me lembrando de anos atrás, com a minha primeira exposição ao filme de sci-fi cyberpunk; eu nem sequer fazia ideia do que era "cyberpunk".

Minha primeira reação ao filme foi a esperada: "que diabo foi isso?" Eu havia acabado de assistir a primeira vez na vida a obra e fiquei altamente confuso. Era muita informação para processar naquele curto espaço de tempo. Não tão complexo quanto 2001: A Space Odyssey, obviamente, mas mesmo assim, me causou uma impressão de que eu teria que reassistir em algum ponto, sinal de que o filme tinha muito a me falar ainda.

Uma das coisas mais legais que eu sempre achei em Blade Runner foi o seu visual sensacional e que inspirou muitas outras produções. Mas além de inspirar, este visual também teve influências de produções passadas. O visual do filme é totalmente dark, apocalíptico, caótico. Ele realmente denota um futro indesejado. Esta atmosfera opressora do filme acabou gerando inúmeros outros clones.

Agora, com relação ao visual da cidade, aos prédios e construções, é simplesmente impossível, para quem conhece do riscado, não olhar para os edifícios e fortalezas do filme e lembrar imediatamente do filme Metropolis, de 1926. Se olharmos os designs de Metropolis, iremos perceber o alto grau de influência que Ridley Scott teve do filme de Fritz Lang. Ele bebeu tanto desta fonte em matéria de designs, que é como se estivéssemos vendo uma versão colorida de Metropolis, e o próprio diretor confessa que se influenciou pelo filme mudo alemão.

E não importa qual versão de Blade Runner você assista, a de 1982, a de 1991, ou o "final cut" de 2007. Sim, tem muitas, e eu já as assisti a exaustão. Sempre terá algo interessante para refletir em qualquer uma delas, porque apesar de existirem diversos cortes do filme, a ideia é sempre aquela. Mesmo a versão theatrical lançada primeiramente nos cinemas em 1982, com o finalizinho feliz e pastel lá, que foi imposição do estúdio. Mas enfim, vamos falar da história.

A trama, que se passa em 2019 (pois é, parecia um ano bem distante em 1982), é sobre andróides senscientes. Até mesmo por essa razão, a obra original a qual o filme se baseia, o livro Do Androids Dream Of Eletric Sheep?, de Philip K. Dick, tem este questionamento no título. Estou planejando falar sobre este livro também, no futuro, assim como fiz com o The Shining de Stephen King, comparando com o filme de Kubrick, mas enfim, estamos lidando aqui com uma ideia genial de Scott para o filme. Não há andróides visíveis em meio ao visual e efeitos. Essa que foi uma grande sacada!

E não é que Scott não tivesse algum orçamento para fazer aparecerem andróides em seu filme com membros metálicos, ou coisa parecida, mas a questão aqui é a ideia de que os andróides são tão bons, tão reais, que alguns deles chegam a ter comportamentos muito, muito parecidos com os de humanos. A coisa fica ainda mais complicada: alguns desses andróides nem sequer sabem que são andróides! Ainda: os andróides são compostos por tecidos e órgãos que imitam perfeitamente a estrutura de um ser humano legítimo.

Desta forma, durante o filme, você não vê os atores imitarem robôs, nem nada disso. Dependendo do seu grau de envolvimento, você até mesmo esquece que está vendo um robô na tela. Os andróides agem, se comportam e pensam como se fossem eu ou você.

A diferença entre eles e um ser humano comum aparece no teste de Voight-Kampff, que caras como Rick Deckard (Ford) fazem para identificarem esses andróides, que no filme são chamados de "replicantes". E a razão, como eu disse, é que eles se parecem demais com humanos em todos os sentidos. Talvez não tanto assim no sentido emocional, mas em certo grau, até nisso.

Deckard é um ex-"blade runner" e um ex-policial que costumava localizar replicantes e colocá-los fora de ação, caso estivessem perturbando a ordem pública. A palavra seria "matar", mas o termo substituto aqui para isso é "aposentar" um replicante, então, caso fossem uma ameaça, Deckard os aposentava. Caso não fossem, seriam permitidos a se misturarem ao convívio público. O teste de Voight-Kampff consiste em fazer perguntas ao potencial replicante para saber se ele é ou não de fato um deles. o blade runner faria em torno de 30 questões envolvendo situações lúdicas ou hipotéticas para identificá-los. Um dos andróides, por exemplo, Kowalski, acaba se entregando  em um desses testes, quando pergunta o que seria um cágado.

O filme tem pouca ação, mas isso é compensado pela sua natureza investigativa (uma coisa leva a outra) e pela reflexão que ele proporciona sobre a ordem das coisas. Uma dessas reflexões, é a respeito de sermos ou não quem pensamos que somos. Em um universo como este, em que humanos e replicantes se confundem, é muito fácil pensarmos em perguntas como: será que eu sou realmente um humano? Ou será que fui fabricado? Será que meus pensamentos e lembranças são mesmo legítimos, ou será que são implantes feitos por alguém? Quem controla quem, nessa história? Será que vou viver muito ou pouco tempo? E também a que eu acho primordial: será que uma máquina é tão "humana" quanto um humano de fato, por se comportar como um humano? Qual é a linha aqui que separa o simulacro da ideia original?

Estas coisas ressoam muito como o pensamento de Platão, que constitui o conceito de ideia original, cópia-ícone e simulacro. Um objeto chamado de verdadeiro, o é em sua mente, quando ele é materializado, trata-se de uma cópia esfumaçada, ou seja, distorcida. Assim acabam se sentindo os replicantes que se tornam espécies de rebeldes: o já citado Kowalski, Zhora, uma performer sensual, Pris, uma replicante que parece ter servido de inspiração para a personagem Arlequina, e o vilão principal do filme, Roy Batty (Rutger Hauer, excelente no papel), um androide excêntrico e questionador que lidera estes rebeldes. Juntos, eles tem cometido certos delitos e estado no planeta Terra ilegalmente. Isso sem falar que estão tentando achar um jeito de prolongar a vida deles, pois foram produzidos como replicantes de 4 anos de vida, e estão prestes a morrer.

O visual desolador e sombrio de Chinatown dá aquele ar de filme noir. A ficção-cyberpunk, dependendo da versão do filme se trata exatamente disso, uma ficção-científica, com ares de filme noir, principalmente se você for assistir a versão de 1982, que tem a narração em off de Deckard. O visual inclui desde os prédios e edifícios, bem como as chaminés em chamas do filme, até mesmo grandes telonas eletrônicas que ficam passando uma chinesa olhando para você o tempo todo. Essa chinesa do telão sempre me intrigou.

O momento do climax do filme, que conta com uma perseguição entre Roy e Deckard é simbólico. Com ares de uma criança, Roy corre em volta de um edifício. Deckard tenta de todas as formas confrontar o replicante. Quando achamos que teríamos o clássico final de disputa de forças antagônicas, característico dos filmes de ficção-científica clássicos, ocorre o inesperado; em uma época que Ridley Scott sabia fazer filmes melhores, o que temos é uma baita surpresa: Roy simplesmente senta, começa a filosofar e fica ali, até chegar a hora de sua inevitável morte. Deckard simplesmente observa, enquanto reflete em sua narração em off. É um dos momentos mais lindos da cinematografia mundial.

Ornado com carros voadores, designs surpreendentes, e uma realidade futurista distópica e sombria, Blade Runner é um baita clássico do gênero ficção-científica que merece ser conferido por todo e qualquer amante de cinema. Harrison Ford está excelente, em uma de suas mais memoráveis performances. A versão de 1991 nos dá uma perspectiva interessante: a possibilidade de Deckard também ser um replicante sem se dar conta disso. Esse detalhe é sugerido quando a personagem Rachael diz a ele o seguinte: "já pensou em fazer este teste psicológico em você mesmo?"

Outro momento interessante é a questão da durabilidade e mortalidade. É o momento final do filme, quando o personagem Gaff (Olmos) diz a Deckard: "que pena que ela não vai viver; mas também, quem vai?" e simplesmente sai de cena. Há uma ambiguidade tremenda aqui: não sabemos se Deckard e Rachael são tipos especiais de replicantes que viverão mais, ou se é porque eles dois vão morrer um dia como qualquer pessoa normal.

De qualquer forma, vale refletir sobre isso. Ainda mais com a excelente trilha sonora soturna do Vangelis; um grande deleite! Escolha sua versão de Blade Runner, seja a de 1982, seja a director's cut, seja a final cut, qualquer uma delas, e viaje para um futuro que, hoje em dia, parece muito com uma realidade alternativa do mundo que temos. Agora é aguardar a estreia de Blade Runner 2049, e ver o que o diretor Denis Villeneuve nos trouxe de novo para este universo. Filme clássico, cultuado e recomendadíssimo por mim.

Blade Runner (1982)
Título em português BR: Blade Runner: O Caçador de Andróides

Direção: Ridley Scott
Produção: Charles de Lauzirika, Michael Deeley, Ridley Scott
Roteiro: Hampton Fancher, David Peoples (baseado em obra de 1968, de Philip K. Dick)
Trilha sonora: Vangelis

Estrelando: Harrison Ford, Rutger Hauer, Sean Young, Edward James Olmos, M. Emmet Walsh, Daryl Hannah, William Sanderson, Brion James, Joe Turkel, Joanna Cassidy, James Hong, Morgan Paull, Kevin Thompson, John Edward Allen, Hy Pyke, Kimiko Hiroshige, Bob Okazaki, Carolyn DeMirjian, Ben Astar

Outros filmes desta série:
Blade Runner 2049 (Blade Runner 2049) (2017)
Blade Runner (Blade Runner: O Caçador de Andróides) (1982)

Trailer:

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