Monday, March 7, 2016

LIVRO: The Shining (O Iluminado) - Stephen King

Nota: 9 / 10

Ano passado, fui agraciado com a oportunidade rara de assistir a um dos filmes de terror e suspense que sempre foi um dos meus favoritos de todos os tempos, The Shining (O Iluminado), na telona da sala de cinema da rede Cinemark. Se por um lado, a rede peca pelo grande excesso de filmes dublados que exibe, o que faz com que eu raramente apareça lá, por outro, ela tem essa iniciativa maravilhosa de exibir clássicos em suas salas.

Mas enfim, na matéria que eu fiz sobre o grande clássico de Stanley Kubrick, eu prometi que ainda iria tomar um tempo para falar do livro de Stephen King que inspirou o filme. E é o que vou fazer agora. Você, que somente assistiu o filme, preste atenção, pois há muitas diferenças, que acabam fazendo da narrativa de King, uma história bem diferente do mergulho na insanidade que Kubrick nos mostrou.

Este livro, eu já havia lido faz bastante tempo, e resolvi repassar pontos dele agora, porque eu estou prestes a terminar um livro do Asimov que estou lendo e começar finalmente a leitura de Doctor Sleep, a sequência de The Shining. Eu pretendia começar a ler Doctor Sleep ainda ano passado, que foi quando eu comprei o livro, mas o tempo acabou sendo bem escasso pra mim. E é mesmo, necessário ler The Shining primeiro antes de ler a sequência, até porque King tem uma rixa bem antiga com relação ao filme que adapta sua obra, fato este que eu já havia mencionado na resenha sobre o filme.

Para começar, é melhor tirarmos este assunto do caminho logo no começo do artigo: para quem não sabe, Stephen King odeia o filme de Kubrick. Pois é! Eu mencionei isso na matéria sobre o filme, quem quiser, acesse e veja. E eu não vou ser hipócrita aqui e dizer que King não tenha suas razões para detestar CERTOS aspectos do filme, como autor da obra original. Sim, há coisas que talvez não tenham sido decisões acertadas, como a Wendy do filme por exemplo, que eu mesmo critiquei, mas o ódio de King pelo filme de Kubrick é muito exagerado ao meu ver. O seu livro carrega sim, uma narrativa tensa, altamente descritiva, com personagens muito bem elaborados e reviravoltas interessantes, ou seja, é sim, uma ótima e obrigatória leitura, mas até mesmo o livro tem coisas que poderiam ser melhoradas. 

Por exemplo, as situações que King criou e que foram representadas no filme de Kubrick, como a cena do machado, a cena do quarto de apartamento, entre outras coisas, não são tão memoráveis assim quanto no filme, com a direção magistral de Kubrick. O diretor eternizou fragmentos do livro, em seu filme, que são apenas componentes da trama com um certo impacto, e o que Kubrick fez foi dar ainda mais impacto a elas com sua fotografia genial do que elas tem no livro. Este é um daqueles raríssimos casos em que a adaptação realmente supera a fonte original. Graças a Kubrick, Jack Torrance é o personagem que nos vem à cabeça quando pensamos em um sujeito perseguindo pessoas em um recinto com um machado nas mãos. O trecho no livro é sim, interessante, mas não tão memorável quanto no filme, em que Jack Nicholson recita Os Três Porquinhos antes de arrebentar a porta do banheiro.

Vamos descrever a ideia do livro que é semelhante à do filme, vocês vão ver, mas como eu falei, são histórias diferentes: Jack Torrance é um escritor em fase de recuperação de seu alcoolismo, e com um certo histórico familiar de momentos não tão agradáveis. Mesmo assim, ele ama sua família e seu filho Danny, e resolve dar um jeito em sua vida. Ele se oferece para a vaga de zelador no hotel Overlook, porque ele está escrevendo um livro sobre o famoso hotel, que tem um histórico bem... como poderia dizer... perturbador.

Sua esposa, Wendy, é uma mulher que ama e apóia seu marido, e por isso a família parte para o hotel para passar uma temporada por lá, até que Jack termine de escrever seu livro e o publique. Na entrevista de emprego, ele conhece o senhor Ullman e lá no hotel eles conhecem Dick Halloran, um homem negro e com idade um pouco avançada, que lhes apresenta o hotel. Só que Halloran nota, desde cedo, que o menino Danny também tem o dom especial que ele tem, e por isso leva um papo com o menino sobre o fato.

Assim como no filme, Danny tem um amigo imaginário, mas diferente do Danny de Kubrick, o de King é um menino mais normal e seu amigo imaginário é somente um espírito que o ajuda quando algo está para acontecer. A presença do menino no hotel é que ajuda os espíritos do passado terem mais influência no lugar, acabando por colocar toda a família em perigo e colaborando para a insanidade de seu pai. Mas novamente, diferente do filme, a dinâmica da família Torrance aqui é bem diferente.

Os pais de Danny não ficam em polos opostos e parecendo distantes como no filme. Não, aqui eles conversam, dialogam sobre a situação. Jack Torrance se agoniza, se preocupa com sua família, genuinamente, ao invés de se mostrar apenas um lunático de natureza, como no filme. A questão que desaponta Stephen King em relação ao filme de Kubrick, é exatamente essa fixação do diretor em enfatizar a loucura e a insanidade, ao invés de se focar na história de redenção de Jack Torrance. Sim, no livro, a jornada de Jack é esmiuçada; vemos ele ir a um sótão e descobrir documentos que mostram o histórico do hotel, os assassinatos, as tragédias, tudo aquilo que irá se materializar, mais tarde na sequência do salão de festas.

Jack é um personagem mais complexo e mais trabalhado no livro do que no filme, mas é claro que isso não quer dizer que o Jack de Kubrick não tem conteúdo. É que o diretor quis ilustrar mais as coisas através de ações e imagens, do que através de narração ou diálogos, então quem não teve contato com a obra original acabou meio que ficando no vácuo. O que aciona a insanidade de Jack no livro não são somente as forças ocultas atuando dentro do hotel, mas também o passado dele com sua família e seu grande problema com o alcoolismo. Inclusive, King tem uma tara por pais alcoólatras em seus livros, e essa constante de suas obras começou a ganhar contornos nesta aqui.

Como eu disse na matéria do filme e citei agora lá em cima, a Wendy do livro é bem mais interessante e bem mais bonita do que a Shelley Duvall. Ela é uma mulher loira normal, com intuição, preocupada com sua família e que faz de tudo para aconselhar sempre seu marido, apesar de ter sim, um certo medo de que coisas desagradáveis do passado voltem a acontecer. Se a Shelley Duvall no filme ilustra uma Wendy fracote e meio banana, aqui a de King é totalmente o oposto. Realmente não dá pra defender a Wendy de Kubrick, apesar dela ter tomado parte em algumas das cenas mais memoráveis da história do cinema. Jack e Wendy no livro se amam de verdade, dialogam, tomam partido nas coisas. De fato, não dá para ler o livro de King pensando em Jack Nicholson e Shelley Duvall, acreditem, eu também tentei isso, mas após algumas páginas, larguei essa ideia completamente.

Por fim, vamos falar sobre um elemento do livro que difere muito em relação ao filme e também sobre o clímax, que é muito, mas muito diferente; e eu devo dizer aqui que, apesar do clímax do filme parecer mais assustador, e o é de fato, o do livro é um dos aspectos que supera o filme de Kubrick por ter mais carga dramática. Aqui é onde eu vou contar o final, tanto do filme quanto do livro, então se você não quer saber, pare de ler aqui, ok? Eu avisei.

Você deve estar se perguntando até agora quando que eu vou mencionar o labirinto do livro, certo? Crente de que essa ideia do labirinto da casa veio de King... só que... não! Não veio! Aquele labirinto que vemos no filme é uma criação 100% kubrickiana. No livro, o que temos é uma sacada no hotel onde há um jardim aberto, e nesse jardim, há arbustos cortados em formas de animais. Pois é. Mais uma das ferramentas narrativas que King usa no livro para ilustrar a crescente insanidade de Jack Torrance, porque na casa, esse jardim faz os "animais" se mexerem, eles criam vida.

Também não temos as gêmeas no livro e os rios de sangue do filme, e o personagem de Jack Torrance, às vezes é referenciado pelo seu nome original, John, e já possuía um trabalho no hotel antes da entrevista. Quanto àquela palavra que vemos no filme, REDRUM ("assassinato" escrito ao contrário, em inglês), aqui no livro também existe, e é uma das poucas coisas que foi mantida intacta na transição de livro para filme, indicando o prenúncio da morte de um personagem. Um dos meus elementos favoritos da obra, até mesmo por remeter a lembrança à Edgar Allan Poe.

Com relação ao clímax, vamos primeiro relembrar o do filme, porque eu disse lá em cima que o do livro é melhor, então vamos comparar: no filme, o Sr. Halloran é assassinado por Jack com o machado; Jack persegue Danny no labirinto, o menino consegue escapar e foge com sua mãe para outro lugar, enquanto o pai morre congelado lá dentro do labirinto; fazemos um traveling da câmera para uma foto na parede do hotel e vemos algo realmente perturbador lá naquela foto, vemos alguém que é muito semelhante a Jack Torrance em uma festa há anos atrás, no mesmo hotel.

Aaah, você não viu o filme e leu o final que eu contei? Me desculpe, amigo, mas um filme de 1980 já não é mais spoiler, sinto muito se você não viu, ok? Toma vergonha nessa sua cara e vá assistir já!

Pois bem, no livro, temos Dick Halloran também voltando para o hotel por causa de um chamado de socorro de Danny, após seu pai ficar louco. Aliás, no livro, Jack tem um martelo de críquete nas mãos, e não um machado, e ao invés de dizer "here's Johnny!", a famosa frase do filme, ele diz no livro "tome seu remédio!".

O que acontece é o seguinte: Halloran não morre como no filme. Ele ajuda a família Torrance a fugir daquele lugar. A razão é porque o pai de Danny, dominado pelos espíritos malignos do hotel que vão mexendo com a cabeça dele e o levando a perseguir sua família, acha uma caldeira no porão que está prestes a explodir. Nos momentos decisivos, o que acontece após a perseguição de pai e filho, que no livro acontece dentro do próprio hotel, é uma cena de redenção. Danny, angustiado com o estado de demência do pai, consegue fazer ele voltar a si. Jack chora pelo filho e o diz que o ama muito, e que ficará lá dentro para deter a caldeira de explodir o quanto puder para que ele e a mãe consigam escapar.

No final, o hotel explode, matando Jack, enquanto Danny, Wendy e Dick Halloran escapam de lá. Algum tempo depois, nas linhas finais do livro, vemos Halloran e a família Torrance vivendo em uma casa de praia, e Dick passa a cuidar do menino junto com a mãe.

Este final eu precisei contar a vocês para poder justificar a razão dele ser melhor do que o do filme. É melhor, na minha opinião, porque está muito mais centrado nas relações entre os personagens, e no crescimento individual de cada um, ao invés de ser somente uma coisa para assustar mesmo, como no filme. Tem mais complexidade e faz mais sentido. Claro, isso não invalida, de forma alguma, o filme de Kubrick, ambas são experiências sensacionais individualmente. Mas o final do livro, realmente é mais bem desenvolvido.

Enfim, considero o livro de King como uma excelente leitura dramática de suspense e terror psicológico. Este livro está em qualquer lista dos 10 melhores livros que Stephen King escreveu na carreira, e não é a toa. Sua narrativa é instigante, e sua história é muito interessante e bem escrita. Eu simplesmente sou fascinado por essa mania do King escrever constantemente referenciando elementos da cultura popular e mantendo o suspense sempre alerta com suas descrições. Recomendo altamente a leitura dele para qualquer pessoa que esteja curiosa ou que curta uma narrativa instigante e muito bem elaborada.

Apesar de uma coisa ou outra, tanto o livro quanto o filme de Kubrick tem muitos elementos bons, assim como uma ou duas falhas, e ambas as obras se completam, sendo igualmente relevantes no imaginário coletivo. E é por isso que eu recomendo a todos que leiam o livro de King, mas também assistam o filme de Kubrick, e não fiquem com essa rixinha boba do escritor contra a adaptação de sua obra; afinal de contas, como diz o Jack Torrance de Kubrick, "só trabalho sem diversão, fazem de Jack um cara bobão"!

The Shining (1977)
Título em português BR: O Iluminado

Escrito por: Stephen King

Livros desta série:
- Doctor Sleep (Doutor Sono) (2013)
- The Shining (O Iluminado) (1977)

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