Friday, June 28, 2013

NO CINEMA: O Som ao Redor

Passei grande parte do tempo do meu pós-exibição tentando montar o arrojado quebra-cabeças que Mendonça propôs no filme. Durante esse tempo, a palavra "ressonância" não me saía da cabeça.

Segundo aquilo que consegui compreender, podemos fazer uma relação da situação das pessoas no filme com as imagens do começo. Tempos diferentes mas condições semelhantes de vida. Uma realidade causa ressonância à outra, assim como a ação e comportamento de uma personagem ressona na ação e comportamento de outra. Como o próprio som ao redor da gente. Percebemos muito pouco aquilo que acontece ao nosso redor, preferimos nos encrustar em nossas próprias "prisões". E por causa disso às vezes a comunicação falha. Assim como quando não conseguimos ouvir direito algo. A discussão de João com seu primo sobre o rádio do carro pra mim foi um grande exemplo disso.

Achei especialmente doce a cena em que João levanta Sofia para tocar a estrela no teto de sua antiga casa. Como se tivesse tentando resgatar o seu passado, tentando entrar em contato com coisas há muito esquecidas ou deixadas de lado em sua vida. Foi um momento muito bonito. Fiz isso quando retornei à casa onde cresci com meus pais e por isso me identifiquei com essa cena.

Todo mundo no filme tenta ter um pouco de conforto e felicidade apesar dos tempos difíceis. E mesmo com tudo aquilo que há de errado no país, há os fortes, como o guarda-noturno que perdeu um olho. Achei simbólica a frase dele para o velho, quando este, fazendo uma associação da história com a cor da pele do guarda, disse que Lampião não tinha um dos olhos e acabou sendo morto, ao que o guarda responde que "antes de cair, derrubou muito". Simbólico. Mostra a garra e a persistência de alguém em viver em uma realidade que não oferece muita motivação para se viver.

Minha pergunta é o que pode ter acontecido após o diálogo final entre os seguranças e o velho. Talvez isso tenha sido deixado para nós decidirmos. O que importa é, aconteça o que acontecer, nada some. O som, os prédios, tudo permanece. Tudo ressona!

E terminando, gostei muito de rever o Fraga de Tropa de Elite 2 nesse filme. Meio diferente, parecendo um pouco menos fracote e mais encorpado, mas foi bom revê-lo.

Enfim, filme muito bom, possivelmente o melhor filme brasileiro desses anos de 2012 e 2013. Muitas metáforas e figuras de linguagem que, a princípio, parecem dar um nó no cérebro mas quem se concentra consegue captar muita coisa bacana. Recomendo!!

O Som ao Redor (2012)
Nota: 9 / 10

Direção: Kleber Mendonça Filho.
Produção: Emilie Lesclaux.
Roteiro: Kleber Mendonça Filho.
Trilha sonora: DJ Dolores

Estrelando: Ana Rita Gurgel, Caio Almeida, Maeve Jinkings, Dida Maia, Felipe Bandeira, Gustavo Jahn, Irma Brown, Mauricéia Conceição, Irandhir Santos, Leo Gonzaga, Alex Brito, Nivaldo Nascimento, Chico Lacerda.

Trailer:

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